Timothy Ward
Ação divina e ação humana na composição da Bíblia
Ação divina e ação humana na composição da Bíblia
Já dissemos que, ao falar da obra do Espírito Santo
em relação à Escritura, a Bíblia concentra-se em afirmar que, no que diz
respeito à origem das Escrituras, Deus é ativo, e o ser humano, passivo. Vimos também que
a Bíblia trata com relativo silêncio o modo ou mecanismo pelo qual o Espírito
conduziu as pessoas a redigir as Escrituras. Contudo, resta ainda saber o que
se pode dizer com certeza sobre tudo isso. Muitos autores evangélicos do
passado referiram-se aos autores bíblicos como “escribas” do Espírito Santo,
“copistas” de Deus e autores a quem o Espírito “ditava” as palavras. Às vezes,
a doutrina evangélica conservadora da inspiração é criticada nesse ponto por
(supostamente) propor o que os críticos chamam de ditado “mecânico”. Contudo,
poucos evangélicos conservadores se dispõem a falar dos autores bíblicos como
indivíduos totalmente passivos e de modo algum ativos na tarefa de redigir as Escrituras.
A maior parte reconhece que a Escritura, em seu caráter, é totalmente humana
tanto quanto divina. Os autores bíblicos apresentam estilos e objetivos
claramente distintos, condizentes com seu caráter, dons e históricos pessoais.
A linguagem da Bíblia é a linguagem humana comum; às vezes, é uma obra
artística de alto nível, ao passo que outras vezes é muito comum. As histórias
do Antigo Testamento muitas vezes se referem ao uso que fazem de outras fontes
históricas, e Lucas introduz seu Evangelho recorrendo ao mesmo expediente.
Nesse sentido, a Bíblia é como qualquer outro livro. Além disso, traduções da
Bíblia para diversos idiomas têm sido produzidas através de conhecimento das
línguas originais. Some-se a isso o fato de que compreenderemos corretamente as
Escrituras somente se atentarmos para a forma de sua literatura e para os
contextos históricos que ela apresenta, com base nos quais foi escrita. Deixar
de dar a devida atenção a quaisquer desses elementos, com o objetivo de
defender a origem divina das Escrituras, significa aviltá-las pelo desprezo a
algumas características fundamentais dos escritos que Deus nos transmitiu.
Portanto, tanto o elemento plenamente divino quanto
o plenamente humano das Escrituras devem ser levados em conta e não contrapostos
um ao outro. Isso quer dizer que quando pensamos sobre a relação do divino e do
humano atuando juntos na produção das Escrituras, fica evidente que ela é uma
instância da atividade providencial de Deus. Ao longo da história, com o
intuito de promover objetivos por ele decretados, Deus atua por meio de ações
escolhidas livremente por suas criaturas. As pessoas agem livremente, mas não
de forma autônoma sob a soberania divina. Esse princípio surge inequívoco em
muitas partes das Escrituras, tal como na venda de José à escravidão (Gn 45.8)
e, principalmente, na morte de Cristo (At 2.23). A isso às vezes se dá o nome
de “operação de convergência” entre a ação humana e a divina. Warfield define
essa operação da seguinte forma: “Nenhuma atividade humana — nem mesmo o
controle da vontade — é anulada, mas o Espírito Santo trabalha em todas elas,
em parceria com todas e através de todas, de tal forma que transmite ao produto
qualidades especificamente supra-humanas”.[1] Em seguida, ele faz
uma detalhada aplicação do conceito à produção das Escrituras: a inspiração, em
sua definição mais ampla, diz respeito ao longo preparo divino do autor e do
conteúdo. “[Deus] preparou Paulo para escrever, e o Paulo a quem ele confiou
essa tarefa era um Paulo que escreveria espontaneamente as cartas [conforme
Deus pretendia que ele as escrevesse].”[2] Portanto, a Bíblia é
totalmente humana e totalmente divina, e a ação de Deus ao produzi-la
estende-se além do momento da redação e abrange a totalidade de sua ação
providencial nos autores.
É exatamente nesse ponto que muita gente se opõe à
doutrina da inspiração. Os últimos três séculos de erudição bíblica nos
proporcionaram um conhecimento das circunstâncias históricas e culturais nas
quais os autores da Bíblia viveram e trabalharam, um conhecimento superior
àquele das gerações que nos antecederam. Afirma-se que isso fez do aspecto
humano das Escrituras um elemento de amplo alcance, diminuindo
proporcionalmente o aspecto divino e dificultando a proposição de um modelo de
operação de convergência entre o humano e o divino.[3] Warfield faz uma
crítica específica a esse argumento, salientando que, se tivermos uma
compreensão adequada da providência divina, o reconhecimento mais amplo do
elemento humano das Escrituras não deverá diminuir nosso reconhecimento do
elemento divino. As ações divina e humana se sobrepõem; elas não competem uma
com a outra.[4] Por trás de muitas
objeções à interpretação evangélica da ação do Espírito Santo na autoria das
Escrituras encontram-se objeções à providência divina que tendem mais ao deísmo
do que a uma doutrina bíblica de Deus, segundo a qual, por mais insondável que
ela seja para nós, uma ação pode ser ao mesmo tempo um ato de Deus e um ato
genuinamente humano.
O Espírito Santo e
a transmissão das Escrituras
Depois de feita a definição correta de inspiração
como ação do Espírito Santo que fala diretamente por intermédio dos autores da Bíblia, fica claro que o Espírito Santo não atuou exatamente da mesma
maneira através daqueles que copiaram
e transmitiram os manuscritos posteriores da Bíblia.
Aliás, cometeram-se erros durante a cópia dos manuscritos, e o complexo campo de
estudos conhecido como crítica textual surgiu para trabalhar com esses
manuscritos no intuito de determinar a redação precisa dos textos originais
(conhecidos como “autógrafos”), os quais, até onde sabemos, não foram
preservados. Portanto, segue-se que Deus supervisionou por sua providência o
processo naturalmente falível de cópia e transmissão, disso resultando que os
inúmeros textos preservados tornam possível, com base nas diferenças entre
eles, reconstruir a redação do original com um alto grau de certeza em quase
todos os casos. De fato, a existência da Palavra de Deus em forma escrita, em
vez de simplesmente oral, tornou sua preservação e transmissão muito mais
confiáveis. Quaisquer erros de importância secundária que tenham se infiltrado
no processo de cópia de manuscritos, muitos dos quais podem ser resolvidos pela
crítica textual, são poucos em comparação com as modificações que ocorrem na
tradição oral com o passar do tempo. Embora em alguns lugares das Escrituras
ainda haja dúvidas em torno da redação precisa do texto original, nenhum ensino
importante depende de algum texto com sentido discutível.
O estudo anterior sobre a inspiração verbal também
lança luz sobre uma questão que surge aqui. A rigor, somente os autógrafos, que
não possuímos, são inspirados. Portanto, às vezes se pergunta não tanto se a
inspiração verbal não estaria errada, mas qual seria seu valor prático, uma vez
que se trata de uma declaração direta sobre textos que não possuímos, e cuja
redação não pode ser reconstruída com precisão em todos os pontos. Isso faz com
que, para alguns, a inspiração verbal pareça uma doutrina puramente hipotética.
A resposta correta que se costuma apresentar é que nenhum ensino de importância
depende de textos cujas formas originais exatas não possam ser reconstruídas
com certeza e, seja como for, o grande número de manuscritos bíblicos antigos à
disposição permite que decisões complexas acerca da redação do original sejam
tomadas com um grau de certeza muito maior em comparação com qualquer outro texto
antigo. Uma vez que o núcleo da inspiração verbal são os atos de fala e não
palavras isoladas, e como as variações nos manuscritos antigos raramente
colocam em dúvida o propósito e o conteúdo do ato de fala em uma frase ou
parágrafo do original, podemos dizer que os textos que hoje temos se aproximam
bastante do original, de tal modo que a inspiração verbal é uma doutrina
importante que de fato se aplica aos textos da forma como se encontram, e não
uma doutrina meramente hipotética.
Esse mesmo argumento nos ajuda a refletir sobre as
traduções da Bíblia: será que, por extensão, elas podem ser consideradas a
Palavra inspirada de Deus? É claro que as palavras de Jesus proferidas neste
mundo e registradas no Novo Testamento já são traduções para o grego da língua
aramaica que ele falava. As palavras de Cristo em nossa língua foram, portanto,
duplamente traduzidas. (Só raramente deparamos com o registro de uma frase
curta de palavras em aramaico proferidas por Jesus, tais como as que ele disse
à filha de Jairo quando a ressuscitou dos mortos em Marcos 5.41.) Essa
observação tem sido tradicionalmente expressa por meio de duas frases latinas:
não temos as ipsissima
verba de Jesus (suas próprias palavras),
mas temos sua ipsissima
vox (sua mensagem — ou, nos termos que venho usando,
seus atos de fala). Isso pode ser motivo de preocupação para os cristãos, à
medida que as Bíblias atuais nos dão acesso às palavras de Cristo por meio de
um vidro embaçado, uma vez que as traduções necessariamente deixam as águas
mais turvas. Bem, é claro que aqueles que estudaram as línguas originais podem
às vezes nos ensinar coisas sobre o significado de um texto que nossas
traduções não podem deixar claro. Contudo, se tivermos em mente que o foco do
ato de inspiração do Espírito Santo era os atos de fala, podemos então ter
certeza de que estes foram traduzidos com exatidão, quaisquer que sejam as
dúvidas em torno da tradução de palavras isoladas de uma língua para outra.
Essa observação aponta para as virtudes das traduções normalmente conhecidas
como de “equivalência dinâmica”, tal como ocorre como a Nova Versão
Internacional. Elas se baseiam no conceito bastante correto de que a unidade
básica de sentido é o ato de fala (como uma frase ou oração), e que isso, e não
a palavra em si, é a unidade na qual o tradutor deve se concentrar ao
reproduzir o sentido na língua de chegada.[5]
O Espírito Santo e
o cânon das Escrituras
O Espírito também estava em ação nos primeiros
séculos da igreja na compilação do cânon das Escrituras. A história desse
processo já foi descrita com detalhes diversas vezes. Em termos muito simples,
ele consistiu no reconhecimento notavelmente rápido e disseminado de, pelo
menos, quatro Evangelhos e de várias cartas de Paulo como Escritura (estas
últimas foram assim reconhecidas desde muito cedo, conforme 2Pedro 3.15,16),
estendendo-se durante um longo período em que havia incertezas em algumas áreas
em relação a outros livros como Judas e Apocalipse.
O principal elemento nesse processo que estabeleceu a
distinção entre a visão protestante e o entendimento católico foi a natureza da
ação do Espírito Santo que se acreditava existir por trás da história. Para o
catolicismo, o Espírito estava em ação sobretudo na igreja e através dela de um
modo essencialmente novo, expandindo a autoridade da igreja no que dizia
respeito à definição do conteúdo das Escrituras. Com o passar dos séculos, essa
expansão transformou-se na autoridade do magistério da igreja estruturada, que
então passou a definir o sentido das Escrituras. Para os protestantes, em
contrapartida, a obra do Espírito nos acontecimentos históricos de compilação
do cânon não levou à criação de uma nova realidade e de uma nova autoridade na
igreja. Foi, antes, um ato a serviço de sua autoria original das Escrituras,
pelo qual, através de um complexo processo histórico, ele levou a igreja a
reconhecer de quais livros ele era de fato autor e de quais não era. As listas
de livros canônicos que os líderes da igreja primitiva eventualmente publicavam
não eram tentativas por parte das autoridades eclesiásticas de impor ordem a
uma situação confusa. Pelo contrário, eram expressões de uma realidade que a
igreja estava descobrindo no tocante à Escritura. A igreja, portanto, não criou
o cânon das Escrituras através do Espírito, mas veio a reconhecê-lo por
intermédio dele. Esse é um aspecto da fidelidade de Deus à sua Palavra e de sua
coerência com ela, promovendo o reconhecimento humano do que ele já havia
realizado ao inspirar as Escrituras.
_________________
[4] A. N. S. Lane, “B. B. Warfield
on the humanity of Scripture”, Vox Evangelica 16 (1986), p. 77-94.
[5] Contudo, é claro que toda boa tradução recorre a uma mescla de
“equivalência dinâmica” e de “palavra por palavra”. Apesar de tudo o que
ocasionalmente dizem as editoras e os conselhos editoriais das novas traduções
da Bíblia em relação ao seu trabalho, todas as boas traduções se debruçam
primordialmente sobre a reprodução do “pensamento” (i. e., o ato de fala) do
original, refletindo ao mesmo tempo a estrutura da frase e a escolha de
vocabulário do original, tanto quanto o permitam as limitações da língua de
chegada. Para dar um exemplo: dentre as traduções de língua inglesa, o que
diferencia em grande medida a recente English Standard Version da New
International Version, e contra o que muitos se insurgiram, é somente o fato de
que os tradutores da ESV estavam mais dispostos a sacrificar a naturalidade daVia: Tuporém
Maxon Nogueira
SoliDeoGloria
Nenhum comentário:
Postar um comentário